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Ágil e inteligente, ‘Filhos da Pátria’ escancara o Brasil dos maus costumes

Entenda a história da nova temporada.

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Em 2017, a Globo estreou a primeira temporada da série Filhos da Pátria. Escrita por Bruno Mazzeo e Alexandre Machado, a trama gira em torno dos comportamentos questionáveis da família Bulhosa durante o processo de independência do Brasil, em 1822. Passados dois anos, os Bulhosa estão de volta com todos os seus desarranjos. Dessa vez em outubro de 1930, tendo que lidar com as transformações do início da Era Vargas, cercada de esperança de um recomeço para o país rumo à ordem e ao progresso.

A segunda temporada de Filhos da Pátria, com autoria de Bruno Mazzeo e direção de Felipe Joffily, estreia na noite desta terça-feira (08). A grande surpresa para o público vai ser poder reencontrar todo o elenco, com os mesmos personagens ambientados no século 19, agora repaginados para uma família do início do século 20. Uma escolha estética que reforça o conceito da história, que critica com muito bom humor um país estagnado e cíclico, que vive eternamente em uma expectativa de mudança, mas que não consegue se livrar de suas mazelas para evoluir como sociedade.

Segundo Mazzeo, idealizador do projeto, o diferencial de Filhos da Pátria é “a inovação, na dramaturgia, de repetir um núcleo de personagens, transportando-os para uma outra época. A ideia é mostrar um país que está sempre recomeçando”.

Para marcar o lançamento da obra, a Globo reuniu há poucos dias elenco e direção para assistir ao primeiro capítulo da série e falar um pouco sobre a história e os personagens, o Opinião Cult estava lá. O encontro aconteceu no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, que serviu como locação para a produção devido à sua importância como sede do governo federal durante os anos retratados.

Na nova temporada, o patriarca da família, Geraldo Bulhosa, interpretado por Alexandre Nero, reaparece atuante como funcionário público, mas troca o ambiente do Paço Imperial pelos salões do Palácio do Catete, onde tem acesso a toda a estrutura oficial de poder do Brasil. Assim como na primeira temporada, a influência de agentes corruptos à sua volta desestrutura os poucos princípios éticos que detém em favor de benefícios próprios, o que anima a esposa, Maria Teresa – interpretada por Fernanda Torres—, obcecada por fazer parte da alta sociedade carioca.

A chegada dos militares gaúchos ao novo governo entusiasma Maria Teresa, que se mostra uma elitista deslumbrada, admiradora de valores que sequer sabe o significado. Para a esposa de Geraldo, a única coisa que importa é a ascensão social. O casal tem que lidar com os filhos, Geraldinho (Johnny Massaro), um jovem inconseqüente e ignorante que espera conquistar coisas na vida sem esforço; e Catarina (Lara Tremouroux), a caçula cheia de ideais em defesa de condições mais justas para a mulher na sociedade e no mercado de trabalho.

Quem também está de volta na segunda temporada é a escrava, Lucélia (Jéssica Ellen), dessa vez enfrentando um novo tipo de exploração de mão de obra, como empregada doméstica na casa da família Bulhosa. Seu padrinho, Domingos (Serjão Loroza), também vai marcar presença em Filhos da Pátria, através de quem a série vai retratar um pouco da exclusão social que alimentou o surgimento e expansão das favelas no Rio de Janeiro, capital do país. Caberá a Domingos, inclusive, mostrar o desenvolvimento do samba, “a voz do morro”, que se tornou música oficial do país na Era Vargas, impulsionado pela chegada do rádio como meio de comunicação de massa.

Outro personagem de destaque que não poderia faltar é Pacheco, interpretado por Matheus Nachtergaele. Superior imediato de Geraldo, é ele quem atua como influenciador dos desvios éticos e morais do protagonista, arquitetando e desenvolvendo os planos de corrupção que permeiam toda a história.

Leonor (Letícia Isnard) – irmã caçula, rica e esnobe, de Maria Teresa—, e Juca (Bruno Jablonski), melhor amigo e cúmplice nas trapalhadas de Geraldinho, retornam à trama. Completam o elenco, Thelmo Fernandes, que viverá Vasco, dono do bar na Tijuca freqüentado por Geraldo e Geraldinho; Candido Damm, que interpretará Olegário, pai de Juca; José Rubens Chacha, como Amarante, o Barão do Café, marido de Leonor; e Adriano Garib, como o Tenente Matoso, que dará rosto à truculência militar que ascendeu ao poder político no governo Vargas.

As mudanças no texto

Com um elenco enxuto e de altíssima qualidade, Bruno Mazzeo e seus colaboradores conseguiram retratar diferentes estereótipos brasileiros, ricos em absurdos que muitas vezes soam triviais, mas construídos com imenso e crítico bom humor. O texto é ainda mais ágil e afiado que a primeira temporada, que parece ter servido de termômetro para encontrar o ponto certo de ebulição dos diálogos. Pelo que pode ser visto, o riso está garantido, mas a reflexão também, o que tende a conquistar diferentes tipos de espectador: desde aqueles que só querem escapar da realidade assistindo uma boa comédia, àqueles que querem esbarrar nas entrelinhas com os personagens com que convivem em seu dia a dia. Para outro grupo, aliás, Filhos da Pátria pode ser um encontro com o espelho, onde irão ver refletido um riso desconfortável, o que só servirá para notabilizar a inteligência na construção das cenas e do texto, que dá um banho de atualidade no Brasil de 1930.

Como não poderia ser diferente, as conversas sobre a realização do projeto giraram muito em torno do cenário político e social atual, que repete o que vimos na Pátria de 1822 e o que veremos na de 1930 a partir desta terça-feira. Um texto tão fresco que parece ir ao ar ao vivo para aproveitar os últimos acontecimentos do dia. Veja o relato dos atores:

Fernanda Torres (foto: Paulo Belote/Globo)
Fernanda Torres (foto: Paulo Belote/Globo)

Fernanda Torres

O que devemos esperar da segunda temporada de Filhos da Pátria?

— São as mesmas questões da primeira temporada, mas na República, com o Estado Novo, com a questão da propaganda política, com a chegada do rádio, das leis trabalhistas. A Maria Teresa lida com a Lucélia, que antes era escrava e agora é empregada doméstica. A Lucélia começa a querer folga, a querer direitos. Apesar dos direitos da época existirem somente para os operários, a gente discute através dela essa questão dos direitos trabalhistas.

“E a Maria Teresa considera isso uma ofensa, porque ela é uma pessoa ‘tratada como alguém da família’. É claro que isso esbarra na PEC, em coisas que a gente enfrentou agora que vem de uma escravidão mal resolvida. São as nossas mazelas incuráveis.

“Mas todos os personagens são os mesmos. O que era no Paço Imperial, a corrupção, a troca de favores, continua igual no Palácio do Catete. Porque são todos personagens eternos.”

Você acha que o humor é uma forma de educar a população?

— Não sei se educar, mas de discutir, colocar em pauta.

“Está tudo muito confuso. Existe o crescimento de um fundamentalismo religioso, mas são pessoas que estiveram nas comunidades carentes salvando muitas vidas. Por outro lado isso hoje ganhou um poder político que dita uma pauta moral que, para o Brasil como a gente vinha vindo, é um susto.

“A sociedade está dividida em fatias que não conversam a mesma língua. O que para alguém é um direito, para outro é uma ofensa.

“Então eu não tenho essa pretensão de ensinar o outro a viver, mas acho que o humor é uma boa maneira de abrir o diálogo.”

Onde você foi buscar inspiração para a Maria Teresa?

— A Maria Teresa você quase pode tocar. Ela é tão bem escrita, é a mistura da mãe de família, tão ingênua que você até gosta dela, embora seja um monstro. Essa é a contradição: você quase tem pena dela e por outro lado ela é terrível. É a mãe gentil.

Você acha que é uma personagem atemporal, por isso pode transitar entre 1822 e 1930?

— Isso é a série! A série é sobre o que no Brasil é eterno; sobre as coisas que resistem ao tempo; as mazelas que a gente não resolveu.

O que você acredita que a gente vem repetindo ao longo do tempo?

— O Brasil é baseado no patriarcalismo e no patrimonialismo. E com uma escravidão que nunca foi resolvida. Essas são as mazelas que fizeram a gente chegar aqui. Acho que elas continuam muito presentes. Isso funda o Brasil e a série fala disso.

Os diálogos parecem repetir as notícias de hoje cedo. Quando ocorreram as gravações e como deixar aceso esse calor do momento?

— Nós gravamos entre maio e agosto. Não dá para escrever muito antes. O Bruno fala: “tem que esperar os acontecimentos para escrever a série ainda com eco do que está acontecendo”.

É comum no humor os artistas contarem com uma certa liberdade em cena, para criar, improvisar. Como foi esse processo em Filhos da Pátria?

— Não tem improviso nela. O texto é tão bom que não havia necessidade de ajudar em nada.

Qual a importância de expor a Maria Teresa?

— Eu acho que ela é uma excelente reflexão para a sociedade. O que eu acho bom é que isso é independente do que está acontecendo agora. As mazelas da escravidão, do patriarcalismo, do patrimonialismo, estiveram sempre presentes. São problemas de Estado, de fundação do Brasil, que continuam ainda hoje. Então, ela é uma excelente reflexão sobre nós mesmos.

Você olha para o futuro do país com esperança?

— Eu acho que o Brasil vive de zerar. O primeiro capítulo acaba com a frase, “nós vamos queimar tudo e o Brasil agora vai”. Nós tivemos a República Nova, o Estado Novo, o Cruzeiro Novo, o Cruzado Novo. Eu assisti na minha vida tanto novo, novo, novo… E é sempre essa ideia de zerar, jogar tudo o que foi feito no lixo para recomeçar. E assim o país nunca aprende com o que aconteceu antes. Estamos sempre destruindo o que foi feito.

“Tem políticas que são de governo e políticas que são de Estado, mas existe uma confusão que sempre que muda um governo tudo o que era política de Estado vai embora. Isso precisa mudar.”

Hoje a classe artística está sendo demonizada. Como você enxerga esse cenário de desqualificação da arte e da cultura?

Esse discurso do “mamador das tetas” é curioso porque vem de longe. É claro que este governo ampliou, mas eu já percebia isso há um tempo. O que aconteceu foi o seguinte – vou fazer um breve histórico das leis de incentivo: antes o teatro, por exemplo, era apoiado por patrocínio direto, que vinha do marketing das empresas. Uma hora chegou-se à conclusão de que isso beneficiava os atores consagrados, conhecidos. Então criou-se uma lei para democratizar o acesso à cultura, que foi a Lei Rouanet. A partir daí todas as empresas pegaram seu patrocínio cultural, tiraram o dinheiro do marketing e criaram mecanismos para a cultura –para enquadrar nas regras da lei, que é bem complicada. Acabou, assim, a coisa de ir até a empresa e o marketing te receber,o que seria o dito “dinheiro bom”.

“Toda a cultura foi direcionada para usar a Lei Rouanet. Até que começou o negócio de que ela privilegiava os consagrados.

“Todo o processo de patrocício começou a acontecer com a Rouanet e depois fomos chamados de “mamadores inúteis das tetas do governo”. Só que isso foi uma política de Estado, que direcionou a cultura por este caminho.

“Mas o discurso é mais antigo. Vem desde a época que o patrocínio pagava a cultura, mas alguém concluiu que os consagrados se beneficiavam com o dinheiro. É uma questão muito mais complexa e não é de hoje. É claro que hoje se agrava como discurso oficial de governo.”

Alexandre Nero (foto: Paulo Belote)
Alexandre Nero (foto: Paulo Belote)

Alexandre Nero

Como foi o processo de gravação da série?

— Foi muito intenso. Essa coisa de gravar menos por ser uma série acabou. Eu fiquei gravando dois meses todos os dias. Parece que estou gravando uma novela das oito. As produções hoje precisam otimizar o tempo. Então, como produção não tem a menor diferença de uma novela. A única diferença é o tempo em que se está gravando. Em Onde Nascem os Fortes, por exemplo, eu fiquei seis meses gravando. Se fosse uma novela teria sido por um ano.

À medida que a série vai se aproximando da nossa época, sem os gestos e gírias em desuso, vai ficando mais escancarado que o Geraldo é um personagem que vive entre nós. Você cria alguma expectativa, positiva ou não, de retorno do público?

— Hoje está tudo tão confuso com esse negócio de direita e esquerda. Você vê a própria Globo atacada pela direita e pela esquerda. Eu sei bem claramente onde eu estou, ou acho que sei, mas isso é muito curioso.

“Os cuidados que a gente teve e que tem que ter é tratar com humor para que a gente não faça rir quem não deve rir. Este é o cuidado do humor hoje.

“A gente trata com lugares bastante particulares. O personagem da Fernanda, por exemplo, é um personagem típico, que saiu de um armário brasileiro que a gente achava que não existia e está aí, assustadoramente exposto e orgulhoso da sua ignorância. E a gente tem que contar essa piada, mas ela não pode fazer eles rirem. Ela é para mostrar como eles são patéticos. A dificuldade é em como fazer isso.

“Eu acho que não tem a ver com direita e esquerda, tem a ver com civilidade e barbárie. Tem coisas que a Maria Teresa fala que são barbárie. Isso tem que se deixar claro. A gente tem que rir torto, porque se a gente ri daquilo que ela falou, a gente errou no tom.”

E o Geraldo, em que categoria se enquadra?

— O Geraldo se mistura. A ideia é que ele não tenha esse maniqueísmo. Ele e um canalha por diferentes motivos: porque é levado a ser um canalha; porque joga a culpa nas pessoas que mandam ele fazer determinadas coisas. Ele usa a velha história do “apenas cumpro ordens”, como se não tivesse responsabilidade nenhuma.

“Os estúpidos são perigosos. Os estúpidos que se acham inteligentes são mais perigosos ainda. Temos exemplos ocupando altos cargos na nossa política. Eles colocam as vidas das pessoas em risco.”

Na primeira temporada, o Geraldo se dividia entre dilemas morais. Na atual isso se mantém ou ele é mais assertivo nos seus atos?

— Ele é mais inteligente que na outra temporada. Ele sabe que está fazendo errado, mas vai fazer. Na anterior ele era mais conduzido a fazer.

Agora que o trabalho está finalizado, já começaram a discutir uma terceira temporada?

— Ainda não temos nada. O Bruno fala da construção de Brasília. Deve ter rolado uma roubalheira sem fim de dinheiro ali. Seria muito legal se chegasse ao agora. Se depender da corrupção, vai ao infinito. Mas no Brasil não temos o hábito de fazer séries com longas temporadas.

 Lara Tremouroux (foto: Paulo Belote)
Lara Tremouroux (foto: Paulo Belote)

Lara Tremouroux

Na primeira temporada vocês tiveram que ambientar os personagens no século 19. O que mudou na sua preparação para enfrentar a Catarina do século 20?

— Foi muito importante como preparação entender essa época, esse contexto. Para isso a gente teve aulas de história para conhecer o momento que íamos viver.

“Mas as duas temporadas tem uma mesma pegada: se colocar em um lugar político, o que eu acho muito corajoso; e falar de questões que precisam ser faladas, do momento que estamos vivendo, que é muito sério, muito grave, muito difícil.

“A preparação foi nesse lugar, de entender o contexto. Mas o que eu acho mais incrível da série é que ela passa em uma época muito anterior, mas é muito atual. Todas as questões são atuais.

“Cenicamente é um esforço entender o corpo e a fala dessa época. Mas na verdade são questões antigas que são muito atuais. Tem coisas, inclusive, que o Bruno escreveu e que não tinham acontecido ainda. Era como se ele estivesse prevendo, porque aconteceram.”

O feminismo da Catarina na primeira temporada já era presente, mas devido ao quadro social, aos costumes da época, soava um tanto velado, mais representado pelas intenções que pelas palavras. Você diria que essa característica vai se mostrar mais contundente agora, retratada no século 20?

—A Catarina vai trabalhar e trazer questões importantes, como a diferença salarial entre homens e mulheres, por exemplo. Os dois exercem a mesma função, mas o homem ganha mais. Isso ainda acontece.

“Então eu acho que ela vai trazendo as discussões para um lugar mais maduro, ela está um pouco mais madura. Não só na relação de trabalho, mas na coragem, no universo feminino e no papel de mulher empoderada.

“Esse é um lugar que eu me identifico muito com ela. Ela tem voz, se coloca e não aceita essas assimetrias de gênero.”

Ela chega a convencer a família a algumas evoluções de pensamento?

— Convencer é um pouco forte. Não chega a convencer, mas ajuda a trazer novos olhares para essa família que vive uma cegueira e uma manipulação tamanha. Na verdade ela é um contraste no ambiente familiar, é a única que pensa mais em certas coisas, que se coloca com inteligência em um momento em que o atraso era ainda maior do que conhecemos hoje.

Você tem alguma Maria Teresa na família?

— Todo mundo tem. Neste momento político complicado em que tudo está polarizado isso se torna mais evidente. Mas eu não tolero discurso de ódio. Comigo não rola!

 Matheus Nachtergaele  (foto: Paulo Belote)
Matheus Nachtergaele (foto: Paulo Belote)

Matheus Nachtergaele

Durante a exibição do episódio foi muito interessante ver as suas reações com as cenas. Foi a primeira vez que assistiu ao material pronto?

— A gente assistiu há alguns dias os três primeiros capítulos, mas sem finalização de imagem e som. Saímos com gostinho do que ia ser, mas sem esse deslumbre da imagem finalizada.

“A minha reação é porque eu estou muito feliz. Fazer um trabalho desse na TV aberta, desde a primeira temporada, é uma grande honra, uma super oportunidade, porque é uma peça de resistência inserida dentro da televisão de maior comunicação da América Latina.

Qual o impacto de levantar questões tão importantes através da comédia?

— Acho que a comédia sempre foi um caminho lindo para o crescimento crítico das pessoas. A comédia é uma maneira de desarmar para fazer com que a gente possa avaliar nossos preconceitos, nossos defeitos, e tentar ser melhor.

“A comédia tem uma função curativa. Quando você está rindo com seus amigos, sua família, ou até com seus inimigos políticos, por exemplo, está desarmando todo mundo para, juntos, poderem aceitar alguma coisa que tem que ser vista em nós. E essa comédia do Bruno Mazzeo é uma comédia dos nossos maus constumes.”

Como você recebeu a ideia de manter os personagens em períodos históricos diferentes?

— Eu acho essa ideia de ir seguindo com Filhos da Pátria pela história do Brasil maravilhosa. Eu espero que a gente possa seguir mais adiante, até se aproximar mais de hoje. Poder alcançar a ditadura militar, o impeachment da Dilma e, talvez, a era Collor. Sempre com muito humor, com esse elenco divino.

“Nós temos alguns gênios aqui. O Alexandre Nero, o Johnny Massaro, a Nanda Torres, só para citar três entre todos. Tem uma coisa muito cuidadosa na escolha de quem vai encarnar esses arquétipos dos nossos maus costumes.”

O que muda de uma temporada para outra?

— Conforme a gente vai fazendo as temporadas o personagem deixa de ser um só e passa a ser um arquétipo. Eu não considero mais o Pacheco um personagem: ele é o político fisiológico.

“Assim como o Nero é um burocrata; a Nanda é a classe média careta, branca, que deseja ser Europa; o Loroza é sempre o negro que, apesar de toda a dor, não perde o carinho; e a Jéssica é a consciência negra; o Johnny é o agroboy desmiolado; a Catarina é o feminismo, o direito da mulher; e o Garib é o militarismo.

“É muito bonito que sejam as duas mulheres jovens da série o lugar de reflexão: a Lucélia (Jéssica Ellen) e a Catarina (Lara Tremouroux).”

Como você definiria Filhos da Pátria?

—Eu resumo como uma comédia dos maus costumes, mas para explicar melhor eu diria que ela parece o pesadelo cômico de Brasil, que vai atravessar as eras do nosso jovem país.

Quando a gente sai do século 19 para o 20 o comportamento dos personagens fica muito mais próximo aos dias de hoje. Onde você buscou o Pacheco?

— A gente vê cada vez mais ele na nossa frente. Eu me lembro de ter a sensação na primeira temporada – apesar de ser em 1822—, de que eu deveria assistir ao Temer falando. O Temer me daria o Pacheco: esse político fisiológico que preferia estar à margem, mas que é colocado como presidente. Ele não gostaria de estar ali porque ele vem à luz: tudo o que ele faz vem à luz. E este é o Pacheco, esse cara que existe desde sempre no Brasil à sombra do nosso olhar, fazendo negócios.

“A política brasileira é uma política de fazer negócios, não é uma política vocacionada, pensada em fazer um país. O país não pode ser um negócio, que vence ou perde.”

Você sempre teve um discurso preciso, sempre se posicionou. Como foi que recebeu a informação para a construção do Pacheco? Porque ele parece mais agressivo nesta temporada.

— Eu acho que na primeira temporada todos nós estávamos tateando o tom, o timbre; esboçando a maneira de fazer essa comédia tão crítica. Ele tinha uma fisiologia, era um homem do dinheiro sujo. Mas nessa temporada, por causa da situação histórica motivada pelo agora, com essa sombra fascista, construímos, juntos –autores, direção e eu—, um Pacheco neofascista, muito mais agressivo, violento por dentro.

“Um homem que se atrela a quem estiver no poder, ao capitão hereditário da vez: que faz o que puder para ganhar a sua grana.

“Ele é um gay de armário e a gente aprofundou isso, que já tinha sido esboçado na primeira temporada. Em alguns momentos a gente vai flagrar ele com seu amante, mas como bom careta, lógico que não vai assumir.

“Além disso, eu utilizei um pouco da minha boa raiva contra a perpetuação dos preconceitos no Brasil e da má política para chegar no personagem. Com isso, obviamente que essa sombra fascista que resolveu se levantar perto de nós tinha que ser mostrada de alguma maneira. Ele é um fascista! E sem dar nome aos bois a gente tenta dar nome a todos: Pacheco!

Serjão Loroza (foto: Paulo Belote)
Serjão Loroza (foto: Paulo Belote)

Serjão Loroza

Como foi receber o convite para uma segunda temporada de Filhos da Pátria, interpretando o mesmo personagem em uma história temporalmente descolada da original?

— É um grande prazer estar junto dessa galera. O elenco é de primeira e a equipe também. O Bruno está mandando ver na caneta. Eu já fiz outras coisas com ele, em outros carnavais, mas a série está demais. A direção também arrebentou. Eu fiz amarradão.

Qual o impacto que você acha que toda a crítica por trás dessa comédia pode gerar no público?

— Eu espero muito que isso surta efeitos na sociedade. Essa crítica toda é o desejo de que a gente consiga transformar o país numa coisa muito mais legal do que ele é, porque a gente tem esse potencial de ser uma nação mais justa, ou pelo menos não tão injusta quanto é.

“A arte tem essa função de fazer a gente se ligar e tentar buscar uma condição mais legal para todo mundo.”

Por falar em arte, o Domingos mergulha em um universo que você passeia com muita intimidade, que é o mundo do samba. Como vai funcionar isso?

— O Domingos está desempregado e ganha dinheiro vendendo sambas dele para outros compositores. Naquele momento é onde o samba está começando a pintar como música oficial do Brasil, nosso cartão de visitas. Eu estou amarradão de ter feito isso.

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